Na primeira matéria desta série, exploramos as etapas gerais para análise de viabilidade de investimentos no varejo (leia aqui) , destacando a importância de uma avaliação cuidadosa dos aspectos financeiros, operacionais e estratégicos do negócio.
Agora, aprofundaremos ainda mais esse processo, concentrando-nos na projeção dos fluxos de caixa, uma etapa crucial para determinar a sustentabilidade e o potencial de retorno de um empreendimento.
Estrutura do fluxo de caixa livre da empresa
Antes de mergulharmos em exemplos específicos, é fundamental compreender a estrutura do fluxo de caixa livre da empresa. Este indicador é calculado subtraindo os gastos necessários para manter e expandir as operações da receita operacional líquida, levando em consideração o resultado operacional, os impostos sobre o lucro, a depreciação e amortização, os investimentos em CAPEX (aquisição de ativos imobilizados e intangíveis) e os investimentos em capital de giro.
FCLE = EBIT – IR + Depreciação e amortização – CAPEX – ICG
Onde:
FCLE = fluxo de caixa livre da empresa
EBIT = Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization. É o resultado operacional, ou seja, a receita menos custos e despesas
IR = impostos sobre o lucro (IRPJ e contribuição Social sobre o lucro líquido)
CAPEX = Capex expenditures, investimentos adicionais em aquisição de ativos imobilizados e intangíveis
ICG = Investimento em capital de giro
O investimento em CAPEX refere-se à aquisição de ativos fixos essenciais para o funcionamento do negócio, como equipamentos, instalações e tecnologia. Já o capital de giro representa os recursos financeiros necessários para sustentar as operações diárias da empresa, incluindo contas a receber, estoques, contas a pagar e outros elementos que mantêm o ciclo operacional em funcionamento. No texto A gestão do capital de giro no varejo (leia aqui) descrevemos em detalhes o significado e importância do capital de giro.
Entenda o exemplo prático
Veja um exemplo: Cálculo do Fluxo de Caixa Livre de uma Nova Filial
Vamos agora aplicar essa estrutura ao exemplo da abertura de uma nova filial. Suponhamos que a empresa decida abrir uma nova filial em uma área com grande potencial de crescimento. Os seguintes números são projetados para os próximos 5 anos:
Receitas Operacionais: Estima-se que a nova filial gere receitas operacionais de R$ 500.000,00 no primeiro ano, com um crescimento anual esperado de 10%.
Custos: Os custos variáveis associados à aquisição dos produtos e materiais a serem vendidos na nova filial são projetados em R$ 250.000,00 no primeiro ano, também com um aumento anual de 10%.
Despesas Operacionais: As despesas operacionais, incluindo aluguel, salários e despesas administrativas, são estimadas em R$ 60.000,00 no primeiro ano.
Impostos sobre o Lucro: Considerando a alíquota de imposto de 30%, os impostos sobre o lucro operacional são projetados em R$ 57.000,00 no primeiro ano.
Depreciação e Amortização: A depreciação e amortização dos ativos da nova filial totalizam R$ 30.000,00 no primeiro ano.
Investimentos em Ativos Fixos (CAPex): Para abrir a nova filial, a empresa precisará fazer um investimento inicial de R$ 100.000,00 em instalações, equipamentos e mobiliário.
Investimentos em Capital de Giro: São necessários R$ 40.000,00 para financiar o capital de giro da nova filial, incluindo estoque inicial, recebíveis e outros.
Com base nessas projeções, podemos calcular o fluxo de caixa livre da nova filial para o primeiro ano da seguinte forma:
| Fluxo de Caixa Livre da nova filial | Valores em R$ no primeiro ano |
| Receitas Operacionais | 500.000 |
| −Custos | -250.000 |
| – Despesas | -60.000 |
| = EBIT | 190.000 |
| − Impostos sobre o Lucro (30%) | -57.000 |
| + Depreciação e amortização | +30.000 |
| – Investimentos em Ativos Fixos | -100.000 |
| − Investimentos em Capital de Giro | -40.000 |
| Fluxo de Caixa Livre | 23 .000 |
Portanto, o fluxo de caixa livre da nova filial para o primeiro ano é de R$ 23.000,00. Para os anos subsequentes, devem ser apurados cada um desses itens. Assim, teremos um fluxo de caixa para cada um dos 5 próximos anos.
Aplicação para investimentos não geradores de receitas
Nem sempre os investimentos realizados vão gerar receita. Em alguns casos, trata-se apenas da substituição de um equipamento, instalação de um sistema, substituição de um equipamento próprio por um alugado, automatização de um processo, entre outros.
Nesses casos, temos que considerar os impactos gerados pelo investimento, incluindo os gastos iniciais, gastos com manutenção, pagamento de aluguéis e de arrendamentos, impactos tributários, como economia de imposto, economia gerada pela substituição de mão-de-obra por equipamentos, além de todos os outros impactos sobre gastos com administração, instalações, etc.
Para ilustrar uma situação prática, vamos considerar um investimento não gerador de receitas, como a aquisição e instalação de um caixa de auto serviço na nova filial. Suponhamos que o custo desse equipamento seja de R$ 50.000,00 no presente.
Embora esse investimento não aumente diretamente as receitas da filial, ele pode resultar em economia de custos operacionais, mas gerar outros gastos. Por exemplo, a instalação do caixa de auto serviço pode reduzir a necessidade de pessoal para atender os clientes, resultando em economias significativas em salários e encargos trabalhistas ao longo dos anos, mas acarretando gastos com manutenção.
Suponhamos que com a instalação do caixa de auto serviço, a empresa consiga economizar R$ 20.000,00 por ano em despesas com pessoal. Considere ainda que esse equipamento precisará de manutenção, o que custará R$5000 por ano à empresa. Por fim, considere que esse equipamento sofrerá depreciação, o que acarretará um lançamento contábil anual de R$1500. Esse valor não é considerado no fluxo de caixa, mas precisamos utilizá-lo para apurar o impacto na tributação.
No cenário original, a empresa tinha uma despesa de pessoal de R$20.000 adicional, que deixará de ter caso adquira o caixa de auto serviço. Considerando uma alíquota de 30% sobre o lucro, essa despesa gerava uma redução no imposto de renda de R$6000.
Então, o fluxo de caixa anual era de um gasto de R$14.000 (20.000 – 6.000).
Novo cenário
No novo cenário, com a instalação do caixa de auto serviço, a despesa incremental da empresa será de R$6.500, resultado da soma dos gastos com manutenção com a depreciação. Assim, a redução do imposto de renda será de 30% de R$ 6.500, que é R$ 1.950.
Apuramos então o fluxo de caixa correspondente aos gastos de R$ 5.000 – R$ 1950 = R$ 3.050. Lembre que o valor de gastos que afetam o caixa é apenas os R$ 5.000, pois os R$ 1500 de depreciação não saem do caixa, servem apenas para calcular o imposto.
Veja então como fazer a comparação: no cenário original, a empresa não tinha investimentos no instante inicial, mas tinha um gasto de R$ 14.000 anuais.
No novo cenário proposto, a empresa gastará R$ 50.000 no instante inicial, mas terá um gasto de apenas R$ 3.050 anuais.
Portanto, calculando a diferença, ou seja, o impacto do investimento, considera-se o fluxo do cenário novo – fluxo do cenário original, ou seja, R$ 50.000 em investimentos no presente e uma economia de R$ 10.950 (-3050 + 14000) nos próximos anos.
Processo fundamental na análise de viabilidade de negócios
A projeção dos fluxos de caixa livres é um processo fundamental na análise de viabilidade de negócios no varejo. Ao calcular o fluxo de caixa livre da nova filial e considerar os investimentos necessários, os investidores podem avaliar a capacidade do empreendimento de gerar retornos e sustentar seu crescimento.
A dinâmica é um pouco diferente para análise de viabilidade de um investimento que não gera receita, já que precisamos considerar o fluxo incremental, ou seja, a diferença entre a situação proposta e a situação inicial. Compreender e calcular adequadamente esses fluxos de caixa é essencial para tomar decisões de investimento informadas e fundamentadas, contribuindo para o sucesso e a sustentabilidade dos negócios no dinâmico ambiente varejista.
Fique atento aos próximos textos, pois exploraremos outros aspectos, como a projeção de receitas, a apuração do custo de capital, os fluxos projetados além do horizonte e o cálculo final para tomada de decisão.
Texto escrito por Marcos Piellusch.
Marcos Piellusch é Diretor Vogal do IBEVAR e professor da FIA – LABFIN.PROVAR.
Fonte – Redação IBEVAR