Varejo Global está passando por uma transformação profunda — e silenciosa. De um lado, manchetes sobre Fechamento de Lojas nos EUA parecem anunciar uma crise iminente. De outro, quando olhamos de perto, percebemos que não se trata apenas de retração, mas de uma reinvenção necessária do varejo físico, guiada por eficiência, dados e novas expectativas do consumidor.

Mais do que “encolher”, os grandes varejistas estão otimizando suas redes, criando formatos menores, mais tecnológicos, mais rentáveis e com menos complexidade operacional. E nesse movimento, há muitas lições importantes para o varejo brasileiro, incluindo desafios semelhantes, como o crescente problema na contratação da nova geração.

Eficiência acima de expansão

Nos EUA, redes como Best Buy, Target, Walgreens e Macy’s iniciaram ciclos de revisão de portfólio. Mas o que parecia “crise” se mostrou estratégia:

Best Buy

  • Fechou lojas de baixo desempenho, mas investiu pesado no omnichannel.
  • Transformou unidades em mini-hubs logísticos, acelerando retirada e entrega.
  • Resultado: aumento de eficiência por metro quadrado e melhor experiência.

Target

  • Reduziu lojas deficitárias em grandes cidades, porém abriu microlojas (small-format stores) próximas a polos universitários e bairros residenciais.
  • Estratégia: estar “onde o consumidor está” e não “onde o metro quadrado é maior”.

Walgreens

  • Fecha lojas em regiões sensíveis por questões de segurança, margem e alto custo operacional.
  • Investe em unidades compactas e clínicas de atendimento, ampliando serviços e reduzindo dependência do sortimento físico.

Macy’s

  • Moveu parte do modelo para shoppings de valor mais alto e strip malls de tráfego qualificado.
  • Apostou em lojas menores, de experiência mais curada, e investiu no digital.

A lógica em comum:

  • Menos Lojas, mas Melhores Lojas
  • Menos Custo Operacional, Mais Rentabilidade
  • Menos Estoque, Mais Giro

E o Brasil? 

O movimento norte-americano não é isolado. No Brasil, diversos varejistas estão redesenhando totalmente suas redes, tanto por pressão econômica quanto por estratégia.

Aqui estão Cases Reais e Atuais de reinvenção em formatos menores, mais rápidos e mais rentáveis:

O Boticário: microlojas inteligentes

  • Implantou lojas compactas em ruas de bairro e quiosques de experiência.
  • Decisão baseada em análise granular de fluxo e potencial de consumo.
  • Custos menores + exposição mais inteligente = expansão sustentável.

Apple Premium Resellers brasileiros (iPlace, iOne): espaços menores e mais eficientes

  • Diversos APRs no Brasil migraram de lojas grandes para formato compacto, com foco em: Acessórios de alto giro, Serviços, Trade-ups e Demonstração Rápida.
  • Resultado: aumento do ticket médio e redução expressiva de despesas.

Magalu – Magazine Luiza: transformação de lojas em hubs last-mile

  • Enxugou alguns pontos físicos pouco rentáveis.
  • Converteu dezenas de lojas em mini-centros logísticos urbanos.
  • Isso reduziu custo de entrega e aumentou a capilaridade do e-commerce.

Havan: foco em hiperlojas rentáveis e revisão de expansão

  • Reduziu ritmo de abertura e intensificou o foco em pontos de alta performance.
  • Reformulou layout interno para melhorar giro de categorias e reduzir o espaço ocioso.

Grupo Mateus: lojas compactas em cidades pequenas

  • Aposta estratégica em lojas menores, adaptadas para municípios de menor densidade.
  • Formato mais barato, rápido de abrir e altamente lucrativo localmente.

Assaí Atacadista: novos atacarejos com footprint menor

  • Novos projetos agora são modulares, permitindo lojas menores que se adaptam à malha urbana.
  • A marca segue ampliando presença, mas com maior disciplina de capital.

O impacto da nova geração na operação

Além da otimização física, o varejo enfrenta outro eixo crítico: a dificuldade de contratação.

A nova geração — especialmente Geração Z — apresenta três comportamentos que têm desafiado o setor:

A baixa atratividade do varejo como carreira, a operação de loja envolve:

  • Trabalho Noturno ou em Fins de Semana
  • Pressão de Metas
  • Grande Volume de Interação Humana
  • Remuneração Inicial mais Baixa

Para muitos jovens, áreas como tecnologia, marketing digital e creator economy se tornaram mais atraentes.

Busca por propósito & identificação com a marca

A Gen Z quer:

  • Empresas Alinhadas a Valores
  • Jornadas Flexíveis
  • Desenvolvimento Rápido

Grandes redes que não conseguem oferecer isso sentem queda no interesse de candidatos.

Nova lógica de trabalho: fluida & imediatista

A nova geração costuma:

  • Trocar mais de Emprego
  • Procurar Experiências Diversas
  • Evitar Rotinas Repetitivas

No varejo, onde o trabalho exige repetição e disciplina, isso cria gaps operacionais.

Como o varejo está reagindo?

Empresas nos EUA e no Brasil passaram a investir em três frentes:

Automação de tarefas repetitivas

  • Self-Checkout
  • Contadores Digitais
  • Etiquetagem Inteligente
  • Reposição Assistida por Sistemas

Menos necessidade de mão de obra operacional → mais foco em atendimento consultivo.

Programas de atração e formação

  • Trilhas Rápidas de Crescimento
  • Lideranças Jovens
  • Gamificação de Treinamento
  • Employer Branding com Propósito

Redesenho de modelos de loja

Formatos menores exigem menos pessoas, mas mais qualificadas.

E esse ponto se conecta diretamente à tendência global:

A Loja Física do Futuro será Menor, Mais Tecnológica e com Equipes Mais Enxutas — porém Melhor Treinadas!

O Varejo Físico está mais inteligente

O fechamento de lojas nos EUA não representa o fim do varejo físico. Representa, sim, uma evolução inevitável:

  • Menos Lojas
  • Lojas Menores
  • Operações Mais Eficientes
  • Equipes Mais Preparadas
  • Experiências Mais Relevantes

Para o varejo brasileiro, a lição é clara: a expansão descontrolada ficou no passado. O futuro está na curadoria, na otimização, na tecnologia, e em formatos de alto retorno por metro quadrado.

E quem entender isso primeiro — e agir rapidamente — sairá na frente nesta nova era de reinvenção do varejo.

Texto escrito por Alexandre Abreu

Prof. Alexandre Abreu é Diretor Vogal do IBEVAR. Atua também em sua consultoria, com foco no desenvolvimento do Varejo multiplicando sua experiência de 25 anos no setor. Sua trajetória também passou pelo desenvolvimento de Business Plans para empresas como também é profundo conhecedor de ferramentas gerenciais como: Análise SWOT, 5W2H, Canvas, Balanced Score Card, Matriz BCG, KPI, Ciclo PDCA, Programa 5S.

Fonte: Redação IBEVAR