A chamada Terça-Gorda — expressão associada ao consumo abundante antes da abstinência — insere-se em uma tradição histórica que antecede o cristianismo institucional. Em civilizações como o Egito Antigo e a Grécia Antiga, festividades com máscaras, ingestão coletiva de alimentos e inversões simbólicas de papéis sociais eram recorrentes. O modelo cultural mais próximo do carnaval contemporâneo emergiu em Roma, durante as celebrações saturnais, nas quais a figura do Rei Momo simbolizava a suspensão provisória da ordem social.

Com a consolidação do cristianismo como religião institucional sob influência da Igreja Católica no século IV, tais festividades foram reprimidas e substituídas pela Quaresma — período de quarenta dias de jejum e reflexão que antecede a Páscoa. Daí deriva o termo latino carne vale (adeus à carne), configurando a Terça-Gorda como momento de consumo intensificado antes da restrição alimentar. Esse rito cultural chegou à Brasil via colonização de Portugal, manifestando-se inicialmente no Entrudo e posteriormente consolidando-se como carnaval popular e institucionalizado.

Na contemporaneidade, além de fenômeno cultural, o carnaval constitui relevante vetor econômico para o comércio e serviços. Estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo indicam faturamento de aproximadamente R$ 12 bilhões na economia nacional durante o carnaval de 2025, crescimento de 2,1% em relação ao ano anterior, sendo bares e restaurantes responsáveis por cerca de R$ 5,4 bilhões e transporte por R$ 3,31 bilhões.
Projeções governamentais apontam participação de mais de 53 milhões de foliões e impacto econômico distribuído em toda a cadeia produtiva — do comércio formal ao informal — reforçando a geração de renda e emprego temporário.
Em nível regional, apenas o comércio e turismo na Bahia podem movimentar cerca de R$ 4,5 bilhões, sendo R$ 4,1 bilhões diretamente ligados ao varejo (supermercados, vestuário e abastecimento de eventos).
A festa também mobiliza estratégias de marketing e presença de marcas nos blocos de rua, evidenciando sua função como plataforma de posicionamento e estímulo ao consumo em setores como bebidas, moda e cosméticos.

Nesse sentido, a Terça-Gorda e o carnaval revelam uma dialética entre cultura e economia: rituais de excesso simbólico convertem-se em ciclos de demanda, abastecimento e experiência, articulando memória social, consumo e varejo. A festividade, portanto, não apenas movimenta o PIB, mas reafirma o papel das práticas culturais como catalisadoras de circulação de bens, serviços e significados no capitalismo contemporâneo.

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Valéria Gadioli

Palavras-chave: Carnaval; Varejo; Consumo cultural; Economia simbólica; Terça-Gorda; Experiência de consumo.

Referências (seleção):

Forbes
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo — estimativas econômicas do Carnaval. (Serviços e Informações do Brasil)
Ministério do Turismo — impacto econômico e fluxo de foliões. (Serviços e Informações do Brasil)
Fecomércio-BA — projeções de comércio varejista no período carnavalesco. (Bahia.gov.br)
Valor Econômico — estratégias de marcas e impacto urbano do carnaval. (Valor Internacional)

Texto escrito pela Profa. Valéria Gadioli

Fonte: Redação IBEVAR