Quaresma nos ensine algo essencial ao varejo contemporâneo: até o silêncio comunica. E até o jejum consome — só que de outro modo.
fev 25, 2026
Quaresma: quarenta dias de jejum? E o que se vende quando se jejua?
No calendário cristão, a Quaresma marca os quarenta dias de jejum, oração e reflexão que antecedem a Páscoa. O rito começa na chamada Quarta-feira de Cinzas — expressão que carrega simbolismo, mas que, no Brasil, ganhou também contornos culturais próprios. Aqui, diferentemente de muitos países, a Quaresma começa “pela metade do dia”. Depois do meio-dia da Quarta-feira de Cinzas, encerra-se oficialmente o Carnaval e inicia-se o tempo de recolhimento.
Essa peculiaridade brasileira dialoga com a força do Carnaval, que, ao longo do século XIX e boa parte do século XX, foi alvo de proibições e repressões. Muitos artistas e foliões — majoritariamente homens — eram detidos durante a festa e liberados apenas na manhã da Quarta-feira de Cinzas. Ironia histórica: para quem estava preso, não havia nada de “cinza”. Havia cor, música e resistência cultural. Afinal, quem está encarcerado não vê o sol — talvez por isso a metáfora pese tanto.
Mas a pergunta que me move não é apenas histórica ou religiosa. É mercadológica e humana: o que se vende quando se jejua?
Jejum, consumo e comportamento
A Quaresma tradicionalmente envolve abstinência de carne vermelha, especialmente às sextas-feiras. Isso impacta diretamente cadeias produtivas: aumenta o consumo de peixes, ovos, massas, legumes e alimentos considerados “mais leves”. Supermercados reorganizam encartes, restaurantes ajustam cardápios, indústrias planejam estoques. O varejo responde.Mas, será que o impacto se restringe à alimentação?
Estudos clássicos de comportamento do consumidor, como os de Philip Kotler, indicam que decisões de compra são profundamente influenciadas por fatores culturais, sociais e pessoais. A religião é um desses fatores estruturantes. Já Zygmunt Bauman, ao tratar da modernidade líquida, lembra que vivemos em uma sociedade de consumo onde identidades são construídas também pelo que escolhemos não consumir.
O jejum, nesse contexto, não é ausência de consumo. É ressignificação do consumo.
Mudam os hábitos da moda, do design e de outros segmentos?
Historicamente, períodos de recolhimento religioso influenciaram estética e comportamento. A sobriedade nas cores, a discrição nas vitrines, a comunicação mais contida são estratégias adotadas por marcas sensíveis ao contexto cultural. Não se trata de oportunismo, mas de leitura social.
A moda, por exemplo, pode privilegiar tons neutros, campanhas menos exuberantes e narrativas mais introspectivas. O design migra do excesso para o essencial. A gastronomia investe em receitas que dialogam com tradição e memória afetiva.
Há uma inflexão simbólica:
menos ostentação;
mais significado;
menos impulso;
mais reflexão.
Isso não significa queda generalizada nas vendas, mas mudança no mix de produtos e na mensagem.
Vender o quê, então?
Talvez a resposta seja: vender propósito.
Durante a Quaresma, o consumidor tende a valorizar:
produtos associados à saúde e bem-estar;
experiências familiares;
itens ligados à espiritualidade;
conteúdos que promovam introspecção e autocuidado;
alimentos alternativos à carne vermelha.
No varejo supermercadista, há clara movimentação em torno de pescados e produtos sazonais. No varejo de moda e lifestyle, há espaço para narrativas sobre equilíbrio, tempo, simplicidade. No setor editorial e digital, crescem buscas por conteúdos ligados à espiritualidade e desenvolvimento pessoal.
A ironia das cinzas e a luz do consumo consciente
Sempre me intrigou a imagem das cinzas. Cinza é o que sobra do que foi queimado. Mas também é o que fertiliza o solo. Na tradição cristã, simboliza finitude e renovação. No mercado, pode simbolizar transição de ciclo.
O Carnaval representa excesso, expansão, explosão de cores. A Quaresma representa contração, pausa e interiorização. Ambos movimentam a economia. Ambos moldam o comportamento.
Se pensarmos sob a ótica da pirâmide de necessidades de Abraham Maslow, o jejum toca níveis distintos:
fisiológico (alimentação);
pertencimento (rituais coletivos);
estima (identidade religiosa);
autorrealização (propósito e transcendência).
O consumo, portanto, não desaparece. Ele se reorganiza.
Perguntas que ficam:Durante esses quarenta dias:
O consumidor compra menos ou compra diferente?
A abstinência alimentar se traduz em consumo mais consciente?
O varejo está atento às dimensões simbólicas do calendário?
Estamos preparados para vender significado, e não apenas produto?
Talvez o maior aprendizado seja este: o mercado não para na Quaresma. Ele amadurece.
Entre o excesso do Carnaval e a promessa de renovação da Páscoa, existe um intervalo fértil de reflexão. E o varejo, quando sensível à cultura, transforma a pausa em estratégia.
Porque, no fim, não se trata apenas de vender durante o jejum.Trata-se de compreender o espírito do tempo — e respeitar seus rituais.
VALÉRIA GADIOLI
Palavras-chave
Quaresma; Carnaval; comportamento do consumidor; varejo; consumo consciente; estratégia de marketing; cultura brasileira; retail; propósito; experiência do cliente; sazonalidade; mercado.
Bibliografia
BAUMAN, Zygmunt. Vida para Consumo: A Transformação das Pessoas em Mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração de Marketing. São Paulo: Pearson, 2012.
MASLOW, Abraham. Motivation and Personality. New York: Harper & Row, 1954.
SOLOMON, Michael R. O Comportamento do Consumidor: Comprando, Possuindo e Sendo. Porto Alegre: Bookman, 2016.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.