Por Valéria Gadioli

O Brasil vota e o caixa registra. Não é coincidência. A cada ciclo eleitoral, o varejo brasileiro vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que é impulsionado por mais dinheiro em circulação, é paralisado pela incerteza.

Em 2026, o fenômeno se repetiu com precisão histórica.

No primeiro turno, em 4 de outubro, o fluxo de consumidores no varejo físico despencou *55,6%*, segundo levantamento da Seed Digital. É praticamente o mesmo número de 2022, quando a queda foi de 56,3%. Nas transações com cartão, a retração foi de *14,9%*, de acordo com a Elo Performance & Insights – com e-commerce sofrendo mais: -18,2%.

O dado assusta, mas precisa ser relativizado. A queda fica concentrada no domingo de votação. No fim de semana inteiro, a retração foi de apenas 4,3%. A venda não some, ela muda de dia.

O paradoxo eleitoral: mais dinheiro, menos confiança

Estudos do Ibevar-FIA, com mais de 20 anos de dados do IBGE e Banco Central, mostram dois movimentos opostos:

1. O efeito estímulo: Anos eleitorais tendem a aquecer a economia. Governo libera reajustes, crédito consignado, auxílios e programas de incentivo. O efeito é maior no trimestre da votação e o varejo ampliado costuma crescer 1,5% de novembro a janeiro após as eleições, contra 0,9% em anos sem voto.

2. O efeito espera: Quando a eleição é acirrada, o consumidor segura a carteira. Nas duas eleições decididas por menos de 5 pontos percentuais, o varejo ficou 5,8 pontos abaixo do seu comportamento habitual. O que trava o consumo não é quem vence, mas a incerteza sobre qual política econômica será adotada.

O Ibevar calcula que, em eleições acirradas, o varejo pode perder até R$ 62 bilhões*em vendas no trimestre eleitoral, concentrado em bens duráveis – geladeira, carro, imóvel – que dependem de confiança para financiamento longo.

2026 é o caso clássico. O índice EPU-Brasil, que mede incerteza de política econômica, já superava os níveis de 2014 e 2022 antes mesmo do primeiro turno. Material de construção e eletrodomésticos foram os primeiros a sentir.

Pós-urna: euforia ou pânico?O dia seguinte à urna também movimenta o varejo, mas na Bolsa.

Na manhã seguinte à reeleição de 2026, ações do varejo despencaram: Magazine Luiza -48,38%, Assaí -48,41%, Renner -38,07%, com juros futuros superando 16%. O setor é o mais sensível ao crédito. Quando o mercado projeta juros altos por mais tempo, financiar estoque e vender a prazo fica mais caro.

É o que a CNC chama de “espera estratégica”. Em janeiro de 2026, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio caiu 6,1% na comparação anual, puxado pela percepção sobre as condições atuais da economia, que recuou 8,1%.

O que o varejista faz?A lição dos últimos ciclos para quem tem loja, shopping ou e-commerce:

1. Não planeje o domingo de eleição. Fluxo de rua cai 64,5%, shopping 55,2%. Reduza equipe, estoque e mídia nesse dia.
2.Antecipe ou adie. O consumidor adia, não cancela. A Black Friday acontece 33 dias após o segundo turno. Quem arruma casa nesse intervalo, vende mais.
3. Cuidado com o CPM.Em ano eleitoral, o custo de anúncio em Google e Meta sobe porque a política domina o leilão. É preciso focar em conversão, não só em alcance.

No Brasil, votar e comprar são atos de confiança. Quando o eleitor não sabe o que vem depois, ele não compra. Quando sabe, mesmo que não goste do resultado, ele volta a comprar. O varejo não depende de quem ganha. Depende de saber que o jogo tem regras.

Fica a dica: 2028 temos eleições!

BIBLIOGRAFIA

  • SEED DIGITAL. Fluxo do varejo cai 55,6% no primeiro turno das eleições 2026. Mercado & Consumo, 06 out. 2026.
  • ELO PERFORMANCE & INSIGHTS. Estudo revela queda de 14,9% nas vendas do varejo no primeiro turno de 2026. SCBR News, 2026.
  • IBEVAR-FIA / AUVO. Confiança do consumidor cai e ameaça vendas do varejo em 2026: análise de impacto de R$ 62 bilhões. Analitica AUVP, 2026.
  • CNC – CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO COMÉRCIO. Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) – Janeiro 2026. SEGS, 2026.
  • IBGE. Pesquisa Mensal de Comércio – Agosto 2026. Nota do gerente da pesquisa Cristiano Santos sobre poder de compra e crédito.
  • Palavras-CHAVe
  • Varejo; Eleições 2026; Comportamento do Consumidor; Confiança do Empresário; Incerteza Econômica; Fluxo de Consumidores; Vendas no Varejo; Economia Política