Nos últimos anos, o varejo brasileiro tem enfrentado desafios significativos para equilibrar crescimento sustentável e riscos relacionados ao crédito ao consumidor.

O cenário econômico de 2024, marcado por inflação controlada, mas ainda com juros elevados, exige estratégias financeiras cuidadosas para sustentar o consumo sem comprometer a saúde financeira das empresas.

Este artigo explora como o crédito ao consumidor afeta o varejo, os desafios enfrentados pelas empresas e as estratégias recomendadas para mitigar riscos nesse ambiente complexo.

O papel do crédito no impulso ao consumo

O crédito ao consumidor é uma ferramenta essencial para sustentar o consumo no varejo brasileiro, especialmente em setores de bens duráveis, eletrônicos e móveis. Com o poder de compra comprometido pela inflação e a alta dos juros nos últimos anos, o crédito tornou-se um meio fundamental para viabilizar compras maiores e de longo prazo.

Cenário Atual: Segundo dados do Banco Central, a taxa média de juros do crédito pessoal em outubro de 2024 permanece acima de 42% ao ano, dificultando o acesso ao financiamento para muitos consumidores. Mesmo assim, a inadimplência em níveis moderados (5,6% em setembro de 2024) demonstra que o crédito continua sendo um pilar importante para o consumo.

O desafio do custo do crédito

O alto custo do crédito é uma das principais barreiras enfrentadas pelos consumidores e pelas empresas varejistas. Enquanto os consumidores lidam com juros elevados, as empresas enfrentam riscos crescentes de inadimplência, além de custos administrativos associados à concessão e gestão do crédito.

Exemplo Prático: Redes varejistas como Casas Bahia e Magazine Luiza tradicionalmente se apoiam em suas próprias estruturas de crédito para atrair clientes. No entanto, a combinação de juros elevados e inflação impacta a capacidade de pagamento dos consumidores, exigindo maior rigor na análise de crédito e nas estratégias de cobrança.

Inovação no crédito ao consumidor: Fintechs e soluções digitais

O avanço das fintechs e das soluções digitais trouxe novas opções de crédito ao consumidor, com menores custos operacionais e maior personalização. Ferramentas de inteligência artificial e análise de dados têm sido utilizadas para avaliar riscos com maior precisão e oferecer limites de crédito ajustados à capacidade de pagamento de cada cliente.

Exemplo Prático: O Mercado Pago, fintech do grupo Mercado Livre, oferece linhas de crédito digital com taxas mais competitivas. Essa inovação permitiu que consumidores que anteriormente não tinham acesso ao crédito pudessem financiar suas compras de maneira mais acessível.

O impacto da inadimplência no fluxo de caixa

A inadimplência no crédito ao consumidor afeta diretamente o fluxo de caixa das varejistas. Quando os consumidores deixam de pagar suas parcelas, as empresas precisam lidar com a perda de receita e os custos adicionais para recuperação de crédito, como cobranças e renegociações.

Cenário Atual: Apesar de uma leve queda na inadimplência em 2024 em comparação a 2023, as margens de lucro do varejo ainda estão pressionadas. Empresas que dependem fortemente do crédito ao consumidor estão buscando novas formas de reduzir riscos, como parcerias com fintechs e securitização de recebíveis.

Estratégias para equilibrar crescimento e riscos

Diante desse cenário desafiador, as varejistas precisam adotar estratégias financeiras que permitam expandir o crédito ao consumidor sem comprometer sua saúde financeira.

Algumas abordagens incluem:

  1. Parcerias com Fintechs: Colaborar com empresas especializadas em crédito digital pode reduzir custos operacionais e melhorar a precisão na análise de risco.
  2. Diversificação de Receitas: Ampliar a oferta de produtos e serviços que gerem receitas recorrentes e independam diretamente do crédito ao consumidor.
  3. Educação Financeira dos Clientes: Oferecer programas de educação financeira para ajudar os consumidores a gerenciar melhor seus recursos e evitar inadimplência.
  4. Securitização de Recebíveis: Transformar recebíveis em títulos negociáveis no mercado financeiro pode gerar liquidez imediata, reduzindo o impacto da inadimplência no fluxo de caixa.
  5. Uso de IA e Big Data: Ferramentas analíticas avançadas podem prever comportamentos de inadimplência e ajustar políticas de crédito em tempo real.

A importância do crédito responsável

O crédito ao consumidor deve ser utilizado de maneira responsável tanto pelas empresas quanto pelos consumidores. Para o varejo, conceder crédito a consumidores com alto risco de inadimplência pode gerar ganhos de curto prazo, mas compromete a sustentabilidade financeira no longo prazo.

Exemplo Prático: Empresas como a RaiaDrogasil, que operam em setores de saúde, adotaram políticas de crédito mais restritivas, preferindo trabalhar com sistemas de pagamento direto ou parcerias com cartões de crédito de grandes instituições financeiras. Essa abordagem reduz os riscos associados à inadimplência e mantém a saúde financeira da operação.

Perspectivas para 2025

À medida que a taxa Selic começa a cair gradualmente, espera-se que o custo do crédito diminua em 2025, proporcionando algum alívio para consumidores e empresas. No entanto, a retomada da confiança no mercado de crédito dependerá de fatores como estabilidade econômica e maior acesso a soluções de financiamento acessíveis.

Ação Recomendável: Para capturar as oportunidades futuras, as empresas varejistas devem continuar investindo em inovação tecnológica e construção de parcerias estratégicas, além de ajustar continuamente suas políticas de crédito com base em análises de dados.

Equilíbrio: Expansão e Riscos

O crédito ao consumidor é uma peça central para o varejo brasileiro, mas também representa um desafio significativo em um ambiente de juros altos e renda comprometida. As empresas que conseguirem equilibrar o crescimento com a gestão eficaz de riscos estarão mais bem posicionadas para prosperar em 2025 e além.

Com estratégias inovadoras e foco na sustentabilidade financeira, o varejo pode não apenas superar os desafios atuais, mas também criar um modelo mais sólido e resiliente de concessão de crédito, fortalecendo a relação com os consumidores e impulsionando o crescimento do setor.

Por: Prof. Marcos Piellusch é diretor Vogal do IBEVAR e professor da FIA – LABFIN.PROVAR. Mestre em administração de empresas pela EAESP FGV – Fundação Getúlio Vargas e graduado em administração de empresas pela FEA-USP – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo. 

Fonte: Redação IBEVAR