No cenário de alta competitividade do varejo, a diferenciação vai além de oferecer produtos com maior valor agregado, exige que cada detalhe do ponto de venda contribua para a atração e retenção de clientes. Tendo em vista essa necessidade, a arquitetura comercial há tempos deixou de ser apenas uma questão estética e passou a representar uma estratégia de marketing e operacional. A arquitetura das lojas e a eficiência dos processos de construção são fundamentais para criar ambientes que encantam os clientes, otimizam operações, viabilizam financeiramente a implantação do negócio e atendam as crescentes demandas por empresas comprometidas com as práticas ESG. A adoção de metodologias como o BIM, que fazem uso de ferramentas tecnológicas, associada a IA, permitem maior agilidade, precisão e inovação em cada etapa da construção ou reforma de unidades de varejo, transformando a maneira como os projetos são concebidos e executados, oferecendo vantagens significativas em termos de agilidade, segurança e retorno sobre os investimentos. 

Arquitetura Comercial: Muito Além da Estética 

A importância da arquitetura comercial vai muito além da estética, é uma ferramenta estratégica poderosa para o sucesso dos negócios no setor de varejo. Um espaço comercial bem pensado funciona como uma extensão da identidade da marca, transmitindo valores, posicionamento e estilo de comunicação da empresa. A concepção arquitetônica deve estimular a compra, ser funcional e emocionalmente envolvente. 

A loja é uma poderosa ferramenta de marketing sensorial e estratégico. Elementos como um layout eficiente, bem planejado e fluído, com iluminação estrategicamente distribuída, sinalização clara e intuitiva, e um design de interiores coerente com o branding da empresa são determinantes na criação de ambientes que favorecem a experiência do consumidor. Esses fatores não apenas influenciam o comportamento de compra, como também contribuem para o aumento do tempo de permanência na loja, melhoram o fluxo de circulação e elevam a percepção de valor dos produtos e serviços oferecidos. 

No varejo moderno, o espaço físico tornou-se parte integrante da estratégia de vendas e isso é especialmente relevante em tempos de omnicanalidade, onde a loja física deve competir — e complementar — a experiência digital. 

Adicionalmente, tendências atuais apontam para o uso de tecnologias como BIM e IA para otimização de projetos comerciais, aliando estética à eficiência operacional e à sustentabilidade — elementos cada vez mais valorizados por consumidores e investidores. 

Portanto, investir numa arquitetura comercial de qualidade é investir diretamente no desempenho do negócio, elevando a atratividade do ponto de venda e reforçando a conexão entre marca e consumidor. 

BIM e IA: Inovação que Facilita a Vida dos Gestores 

A aplicação da metodologia BIM (Building Information Modeling) permite a criação de modelos 3D (tridimensionais) altamente detalhados, que facilitam a comunicação com stakeholders não técnicos, por meio de uma visualização mais realista dos projetos, o que reduz significativamente erros de interpretação e acelera os processos de validação e aprovação de novas unidades de negócio ou reformas de unidades existentes.  

Além disso, a automação proporcionada pelo BIM no levantamento de quantitativos viabiliza orçamentos mais precisos e alinhados com a realidade da obra. Essa precisão orçamentária contribui diretamente para a redução de desperdícios e possibilita uma análise mais acurada do retorno sobre o investimento — um fator crítico em empreendimentos comerciais onde a rentabilidade é decisiva. 

A integração da Inteligência Artificial nesse ecossistema eleva ainda mais o potencial do BIM. A IA possibilita simulações de desempenho energético e previsões de custos operacionais ao longo do ciclo de vida do edifício, fornecendo dados valiosos para o cálculo do payback de investimentos em soluções sustentáveis. Além disso, algoritmos inteligentes podem otimizar o planeamento logístico da obra e prever manutenções preventivas de equipamentos, assegurando a continuidade das operações e a eficiência das atividades de varejo. 

Assim, a convergência entre BIM e IA oferece uma abordagem estratégica e integrada, indispensável para quem deseja projetar espaços comerciais mais eficientes, sustentáveis e economicamente viáveis no competitivo mercado do varejo. 

Reformas Mais Rápidas e Eficientes 

No setor do varejo, a agilidade na adaptação de imóveis existentes para novas unidades é uma exigência estratégica. Esse cenário é especialmente comum em lojas de vizinhança e redes que buscam expandir a sua presença com rapidez e eficiência. A utilização de tecnologias como o BIM (Building Information Modeling) em conjunto com soluções de Inteligência Artificial (IA) podem revolucionar a forma como essas reformas são concebidas e executadas, oferecendo ganhos expressivos em precisão, prazo e custo. 

O BIM, por meio da modelação tridimensional integrada a dados construtivos, permite o mapeamento detalhado de edificações existentes, tornando-se essencial para reformas onde é necessário respeitar a estrutura pré-existente. Quando associado a ferramentas de IA — como scanners 3D com interpretação automática, drones com mapeamento fotogramétrico e algoritmos que otimizam layouts com base em fluxos de circulação e comportamento de consumo , o processo tende a torna-se ainda mais poderoso. 

Softwares que utilizam IA conseguem captar e analisar dados precisos das condições reais do imóvel. Softwares como o Revit, com plugins de nuvem de pontos (point cloud), ou plataformas como Scan to BIM, que convertem digitalizações feitas por laser scanners em modelos BIM prontos para edição por exemplo,  permite uma elaboração mais rápida de projetos de retrofit que preservam a integridade estrutural e adaptam o espaço às novas exigências funcionais e estéticas da marca. 

Além disso, a IA pode ser aplicada na simulação de cenários operacionais, prevendo, por exemplo, o comportamento térmico da loja após a reforma ou o impacto da disposição de mobiliário no fluxo de clientes. Tais simulações são cruciais para decisões sobre climatização, iluminação e ergonomia — todos elementos que impactam diretamente na experiência do consumidor e nos custos operacionais. 

A integração dessas tecnologias reduz significativamente os prazos de projeto e execução, além de minimizar erros e retrabalhos. No contexto de redes de varejo que operam com cronogramas apertados e metas de ROI bem definidas, essa eficiência representa uma vantagem competitiva considerável. 

Empresas como Amazon Go, Decathlon e Leroy Merlin já utilizam metodologias semelhantes para a requalificação rápida de espaços, aliando digitalização, automação e inteligência preditiva. O resultado são unidades otimizadas, personalizadas para cada contexto urbano e entregues em tempo recorde. 

Assim, o uso integrado de BIM e IA nas reformas de unidades de varejo posiciona-se não apenas como uma inovação tecnológica, mas como um verdadeiro catalisador de eficiência e valor para as marcas. 

Manutenção Preditiva: Evita Problemas Antes Que Aconteçam 

Outro benefício desta dupla poderosa, aplicação do BIM aliado à IA é a manutenção preditiva. Com sensores e algoritmos, é possível monitorizar equipamentos e prever falhas antes que elas aconteçam. Isso reduz custos com reparações, evita paragens inesperadas e garante o bom funcionamento de sistemas críticos como climatização ou iluminação. 

A manutenção preditiva tem-se revelado uma estratégia essencial para o setor do varejo, permitindo antecipar falhas e otimizar a gestão de ativos. Com a integração de tecnologias como o Building Information Modeling (BIM) e a Inteligência Artificial (IA), é possível monitorar em tempo real o desempenho dos equipamentos, prever falhas e planejar intervenções de forma mais eficiente. Estudos indicam que empresas que adotaram a manutenção preditiva registaram um aumento de 28,3% na produtividade e uma redução de 20,1% no tempo de inatividade dos equipamentos  

A aplicação do BIM aliado à IA permite uma gestão mais precisa dos ativos, centralizando informações e facilitando a tomada de decisões. Por exemplo, em centros comerciais, essa integração possibilita a previsão de desgastes em sistemas críticos, como HVAC, e a substituição de componentes antes que ocorram falhas, garantindo a continuidade das operações . Além disso, a IA pode analisar dados de sensores para prever necessidades de manutenção, prolongando a vida útil dos ativos e reduzindo custos operacionais .​  

Em suma, a combinação de manutenção preditiva, BIM e IA representa uma abordagem inovadora e eficaz para o setor do varejo, promovendo a eficiência operacional, a redução de custos e a melhoria na experiência do cliente. 

Barreiras e Oportunidades 

Vale ressaltar que nem tudo são flores. Implementar essas tecnologias exige investimentos e mudanças de cultura organizacional. Muitas empresas ainda veem a construção como custo e não como valor. Além disso, há desafios técnicos como padronização e a formação de equipes tecnicamente qualificadas.  

A adoção de tecnologias como BIM (Building Information Modeling) e Inteligência Artificial (IA) em projetos e obras de varejo enfrenta uma série de desafios estruturais e culturais. Um dos principais obstáculos é o alto investimento inicial necessário para implementação dessas soluções, que envolve tanto a aquisição de softwares e hardwares específicos quanto a qualificação das equipas técnicas. Para muitas empresas do setor, especialmente aquelas com operações fragmentadas ou em processo de expansão, esse custo pode parecer desproporcional, principalmente porque construção e manutenção não são o core business do varejo, sendo frequentemente vistas apenas como custo/ despesa e não como fontes diretas de lucro. Essa percepção dificulta o engajamento dos stakeholders, que tendem a priorizar investimentos em áreas mais diretamente ligadas à operação comercial. 

Outro desafio significativo é a resistência à mudança por parte das equipas envolvidas nos processos tradicionais de projeto e obra, que muitas vezes operam com metodologias convencionais e fragmentadas. A adoção do BIM e da IA exige uma mudança de mentalidade organizacional, com integração multidisciplinar, compartilhamento de informações e atuação colaborativa entre arquitetura, engenharia, construção e operação. A ausência de padronização nos processos e a falta de interoperabilidade entre plataformas tecnológicas também são barreiras técnicas relevantes. No entanto, esse cenário representa igualmente uma oportunidade: ao superar essas dificuldades, as empresas podem obter ganhos significativos em eficiência, controle e sustentabilidade. A digitalização de processos permite a tomada de decisões mais assertivas, a redução de retrabalhos, maior previsibilidade de custos e prazos, além de projetos mais alinhados às metas ESG — fatores que, a médio e longo prazo, se traduzem em vantagem competitiva e retorno financeiro concreto. 

Conclusão: A Loja do Futuro Começa Agora 

Investir na adoção de tecnologias como aquelas utilizadas na em BIM e IA na arquitetura do varejo é investir na inteligência do negócio. Essas tecnologias possibilitam maior controle, previsibilidade e assertividade, promovendo experiências mais ricas aos clientes e resultados mais robustos para as empresas.  

A integração da arquitetura e da construção civil com tecnologias avançadas como BIM e IA é essencial para o sucesso no varejo moderno. Essas ferramentas não apenas melhoram a eficiência e reduzem custos, mas também criam ambientes que encantam os clientes e fortalecem a identidade da marca. Superar as barreiras à adoção dessas tecnologias é um passo estratégico para empresas que desejam se destacar em um mercado cada vez mais exigente. 

A tendência é que ferramentas de IA se tornem cada vez mais acessíveis e adaptadas à realidade do varejo, abrindo caminho para novas pesquisas e soluções inovadoras. 

Referências 

  • Succar, B. (2009). Building Information Modelling framework: A research and delivery foundation for industry stakeholders. 
  • Eastman, C., Teicholz, P., Sacks, R., & Liston, K. (2011). BIM Handbook: A Guide to Building Information Modeling. 
  • Santos, E. T., & Catelani, W. (2018). BIM: Conceitos e Aplicações na Engenharia Civil. 
  • Lee, K. F. (2018). AI Superpowers: China, Silicon Valley, and the New World Order. 
  • Taulli, T. (2020). Artificial Intelligence Basics: A Non-Technical Introduction. 
  • Kotler, P. (2017). Marketing 4.0: Do Tradicional ao Digital. 
  • Campelo, A., Veloso, G., & Tobler, R. (2020). Indicadores do Comércio Varejista. 
  • Kotler, P. (1973). Atmospherics as a Marketing Tool. Journal of Retailing. 
  • Bitner, M. J. (1992). Servicescapes: The Impact of Physical Surroundings on Customers and Employees. Journal of Marketing. 

 

Texto escrito por Roberta Dionello

Fonte: Redação IBEVAR