Por Valéria Gadioli
O varejo está diante de uma pergunta que a tecnologia, sozinha, não consegue responder: como voltar a encantar o consumidor?
É nesse território que a artificação ganha relevância. O conceito, desenvolvido pela socióloga francesa Roberta Shapiro e aprofundado em parceria com Nathalie Heinich, analisa os processos pelos quais pessoas, objetos e práticas podem adquirir novos significados e passar a ser percebidos sob a lógica da arte. Não se trata simplesmente de decorar um espaço, mas de transformar relações, objetos e experiências por meio de processos simbólicos, materiais e contextuais.
No varejo, essa perspectiva abre uma possibilidade estratégica: usar arte com curadoria, conhecimento e disciplina para transformar informação em experiência, produto em narrativa e espaço comercial em território cultural.
A Louis Vuitton oferece exemplos contundentes dessa aproximação. Sua história, seu savoir-faire, suas exposições e seus espaços culturais fazem com que a loja deixe de ser apenas um ponto de venda. Em diferentes cidades, a Maison incorpora arquitetura, patrimônio, design, exposições e arte contemporânea à experiência da marca. O próprio Espace Louis Vuitton mantém programas expositivos dentro de suas Maisons, aproximando consumo, cultura e criação.
É uma estratégia particularmente poderosa na era da cibercultura. Como observa Pierre Lévy, as tecnologias digitais não criam apenas novos meios de comunicação: elas transformam práticas, comportamentos, modos de pensar e formas de interação.
Assim, a experiência física não termina na porta da loja. Ela pode continuar no Instagram, no vídeo, no compartilhamento, na memória e na criação de novas narrativas digitais.
A beleza, quando existe intenção e curadoria, torna-se comunicável. Um produto bem apresentado pode gerar conhecimento; uma história bem contada pode gerar desejo; uma experiência esteticamente construída pode criar pertencimento.
O desafio do varejo contemporâneo não é escolher entre físico ou digital. É compreender que o físico pode produzir conteúdos para o digital, e o digital pode ampliar o significado da experiência física.
Artificação, nesse contexto, não é transformar tudo em arte. É compreender o poder da arte para dar novos sentidos ao que já existe.
Talvez seja esse um dos caminhos para o varejo voltar a fazer aquilo que nenhuma tecnologia consegue fazer sozinha: emocionar, surpreender e criar novos mundos na cabeça do consumidor.
Referências bibliográficas
- SHAPIRO, Roberta. Que é artificação? Sociedade e Estado, Brasília, v. 22, n. 1, 2007, p. 135–151.
- SHAPIRO, Roberta; HEINICH, Nathalie. Quando há Artificação? Sociedade e Estado. O artigo aborda a artificação como processo simultaneamente simbólico, material e contextual.
- SHAPIRO, Roberta. Artification as Process. Cultural Sociology, v. 13, n. 3, 2019.
- LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.
- LEMOS, André. Cibercultura: alguns pontos para compreender a nossa época. In: LEMOS, André; CUNHA, Paulo (orgs.). Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.